domingo, agosto 29, 2010

Agora sou eu

Alguém se lembra quando ela abria a geladeira e pegava uma cerveja?
Acho que não. Só lembro do eu, da mãe, na cozinha.
Ela mexendo as panelas, olhando o arroz.
Eu conversando, fazendo companhia. Não era justo.

Nunca foi justo. A casa inteira vibrando e ela no fogão.
Todos comiam de boca cheia, e ainda ouvia reclamação de uma irmã mais velha, que a batata estava sem sal, que o bife estava duro.

Duro é levar o mundo nas costas e ao buscar seu meio de se libertar, ouvir repressão.
Puxa vida, minha mãe, uma lata na mão?
Mal sabia eu que era necessária, como sempre foi ao pai, ao avô, ao parente desconhecido.

Hoje sou eu que vou ao mercado, que cozinho, que engulo a comida sem sal que fiz, mas continuo achando boa, porque sei o trabalho que se dá para sair do duro e entrar no cozido.

Hoje, meu deus, sou eu que coloco na cesta umas latas, que as lavo, que as gelo, que as abro.
E sou eu, descaradamente, a safada que bebe e arrota. Um arroto caldo de pia. E que seja audível e claro, como queria que fosse, minha mãe, meu pedido de desculpas.

Hoje sou eu.

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