terça-feira, março 08, 2011

O hóspede daria, hospedaria?

Culpem-me por ser a mais egoísta das pseudoaltruístas
Quero a clara exposição do carinho expressa no detalhe de uma noite
O minúsculo movimento amoroso do qual sou alvo

Alva a pele como a ficha, mas não a alma
Movimentos em busca do perfeito? Longe, não alcanço
Sigo o coração, telefone. Escândalo.

Necessidade de ser vista e não visada
Medo de ser como a mesa, que oferece o banquete do qual nunca é servida
Egoísta. Sim, torna-se claro.

Agora vejo que entre amigo e namorado não haveria diferença
Arrume a cama, pegue o edredom, ponha-se a dormir
Porque saberei mesmo assim que algo maior nos une, além do mesmo espaço

Já nessa, situação em que me encontro, o agora
Tamanha a falta de suporte em que me meto
Que nego uma noite bem dormida pensando ser,
No fundo do ser a quem tanto prezo, somente uma hospedaria.

O que é falta?

Falta é saudade
é sentir ausência
que é carência
que é falta
que é antônimo de abundância
e
sinônimo de

pecado

segunda-feira, março 07, 2011

AbsoLvente

Menstrua, me instrua, o sangue é vida, a vida gera sangue e mais sangue e instruções.

Descola o pedaço e vem sangue.

O choro é sangue, o adeus é sangue, a saudade é sangue.
Sangue é vida.
Sangue é separação.

No sense

"Por que ficar on-line se não pode conversar?
Por que entrar no bate-papo se precisa estudar?
Urgências? Ligaremos para você nesse caso.
Acho que seu celular existe para isso.
Não quer conversar, não dê as caras.
Não apareça no mesmo espaço, mesmo que virtual.

Não entendo mais o significado das palavras.
Proibido fumar, e fumam.
Permitido manifestar, silêncio.

Fechado. O sinal está fechado mesmo,
para nós que somos jovens e queremos abraçar o irmão
e beijar o menino na rua."

No grande poste, o vermelho pisca.

Vai entender esse mundo...

domingo, março 06, 2011

Passarinhos, como vão vocês meus passarinhos...

...vocês iriam ter milhões de ninhos nesse mundo só meu. Acho que essa música, de Alice no País das Maravilhas, costura bem o episódio “aves” vivido hoje, e tem tudo a ver com A Gaivota, de Anton Tchecov. “Nesse mundo só meu”... creio que os personagens se perdem nesse mundo. Eles estão tão fechados em se fazer realizados, que fracassam o tempo todo. Até a Macha, que pode parecer a mais sensata, racional, vai seguindo o caminho da roça.

Dois fracassos de atrizes, pessoas menos que medíocres, independente do resultado da arte. Vivem em função do outro. Lutam pelo mesmo artista do qual querem aprovação, se perdem a aprovação se perdem. Uma, Arkádina, aceita viver com chifres, melhor do que viver sozinha. E a outra, Zariêtchnaia, é pisada o tempo todo - mas o que importa, se o sapato é de um homem ilustre!?

Quem é Sórin? Talvez a figura mais engraçada de toda a comédia. Ah, sim, ele é tão vigoroso, tão cheio de vontade de viver que é o primeiro a dormir nas reuniões. Inventa desculpas para vida tosca que levou, ciente da incapacidade de ter realizado dois sonhos: ser escritor e ter se casado.

Vários queriam escrever. E a escrita, em nenhum momento, surge como satisfação. É motivo de inquietação, Trigórin (que me fez lembrar o Gânia, de O Idiota, do Dostoiévski - por ser um encostado) vê em suas obras um ato de tormento. Ele não sossega. Não consegue viver sem anotar e pensar no que pode, ou não, entrar em sua próxima obra.

Trepliov é outro insatisfeito. A inspiração dele está na amada. Vai-se a amada e vem, em troca, uma tentativa fracassada de suicídio e outra muito bem realizada.

Inquietação. Acho que essa palavra definiria A Gaivota. Todos estão perturbados com suas vontades, amores, medos. Talvez tirando a figura do médico, o mais romântico entre os realistas, todos vivem tormentos. O médico, engraçado, é o único que parece gozar a vida e é o único que, de fato, olha para o outro como outro.

Tem tudo a ver com o Pollock, também, essa insatisfação artística. A atriz, o escritor, todos querem ser reconhecidos e terem uma característica particular que os possa distinguir.

Para finalizar, achei boa, apesar de triste por ser, digamos, “não difícil de imaginar”. É mais um grupo de perdidos no ego, na vaidade, no amor, na dependência com o outro, carentes da aprovação do outro e no fundo preocupados só com o seu. Nisso, não saem desse mundo, universo de festas, de bebidas. Rola até um rapé.

Para também encerrar com música, o que ando vendo nessas obras “é um ciclo sem fim”.

Precisa fazer sentido?

Depois de assistir a Os Pássaros de Alfred Hitchcock, fico com algumas hipóteses sobre o ataque de tantos corvos, pardais e gaivotas revoltadas. Fúria da natureza. O cara do botequim estava certo, é o fim dos tempos. Os pássaros queriam Bodega Bay de volta e planejaram o ataque. Tanto é que quando a família de Mitch resolveu ficar, eles quiseram atacar a casa. E quando eles planejavam partir, tudo bem.

Outra hipótese. Segundo a senhora do botequim, há trilhões de pássaros do mundo todo. Certo. Pode ser que com as mudanças climáticas provocadas por toda a poluição liberada por aqueles lindos carros enormes, que vemos no filme, tenha reduzido a quantidade de alimento das aves. Com pouca comida, descobriram que o sangue é rico em ferro e passaram a viver disso. Epa! Mas eles deixavam o cadáver todo no chão e iam embora! Talvez tenham descoberto que comer só o olho é mais gostoso e nutritivo. Se eles assistiram a uma das primeiras versões de No Limite, com o Zeca Camargo, isso é possível - curtiram a ideia de comer olhos de outros animais (lembra do olho de cabra?).

Uma outra hipótese são os periquitos. Os periquitos foram a gota d´água para a rebelião acontecer. Os pássaros estavam esperando só mais um motivo da crueldade do homem para se revoltarem. Já começaram um alvoroço quando viram a tia loira entrar na loja toda pimpona e depois botaram para quebrar, literalmente!

Agora veja por quais situações os coitados dos periquitos passaram:

  • foram encomendados de um dia para ou outro. O cara que trouxe a encomenda deve ter corrido tanto que os coitados chegaram a ter vertigens;
  • viajaram cerca de duas horas para um lugar bizarro chamado Bodega Bay para serem dados de presente para uma menina chorona;
  • ficaram o tempo todo presos na gaiola sem que ao menos se verificasse se eram mesmo um casal. Em uma das falas de Melanie Daniels (Tippi Hedren) a sexualidade dos animais é colocada em dúvida! Deviam ser duas fêmeas revoltadíssimas, fadadas a viver eternamente juntas;
  • foram colocados em um barco de madeira precário para chegar do outro lado do rio.
  • quando quiseram conversar, durante à noite, a mãe do Mitch colocou um pano estilo lençol em cima da gaiola minúscula deles. Lembra? A família acha os animais muito agitados e a solução que encontram é colocar um pano na gaiola deles?! WTF?

Enfim, eles não eram da turma das gaivotas, pardais e corvos, mas eram pássaros e os brothers foram ajudar. Só que no final, os periquitos não foram libertados. Por quê? Provavelmente os pássaros ficaram com medo de perder a fama de maus, se a eles se juntassem um bando de periquitos verdinhos de papinho vermelhinho. Assim, deixaram eles partir presos juntos com os humanos, já prisioneiros desde o nascimento (em seus medos, suas inseguranças, aquela coisa toda).

E aí. Faz sentido?

Ps: Filme antigo, de 1963, efeitos visuais bons. Eu senti o pássaro me picando e eu adorei a quantidade de pássaros em voltada dos lugares e a interação mostrada pelas câmeras. Só daria 5 para a cena que os periquitos tombam no compasso do carro, no início do filme. Mas valeu, Hitchcock, deu para rir.


sábado, março 05, 2011

Quanto vale uma obra de arte?

Falta de auto-estima, falta de crença em si mesmo, falta de humildade. Inveja de Picasso. Gostaria de sê-lo, negando-o. Jackson Pollock. Mais um gênio perdido, levado pelo álcool, pelas devassas. Não basta ser brilhante, tem que saber brilhar.

O filme é bonito, apesar de triste. Vi nele a vida material humilde de artistas que seguem seus ricos sonhos. Ele não trabalhava em grandes firmas, sua preocupação/riqueza era pintar. Conheceu uma grande mulher Lee Krasner, também pintora, artista. Perfeita expressão da faixa vibratória das almas. Eles combinavam.

Quando ela foi, a vida dele foi também. A ideia inicial é de total dependência. Ela agarra a esse homem como uma mãe, fazendo de tudo para vê-lo brilhar. Ela não telefona vendendo os quadros dela, ela organiza as exposições para ele. Quando viviam juntos, a vida dela era a dele. O talento dele era a expressão do dela. O café que ela fazia, o carinho, a comida, os telefonemas, as palavras, convertiam-se em obras de arte. Trabalho de dupla autoria.

E ele, o grande gênio, o ousado, o admirado, o mais conhecido, definhou-se. Devassas levaram ele. Cervejas e mulheres, todas elas. E o cuidado com o comportamento não correspondendo ao cuidado com a obra, deixou os quadros órfãos muito cedo. Uma pena!

O papel da mulher

Agora acho que cheguei ao ponto sobre o qual, de fato, gostaria de tratar. O papel da mulher na vida dos grandes artistas. É interessantíssimo o papel da mulher. Pollock diz a si mesmo, que deve algo a Lee, que sem ela teria morrido muito antes. A devassa afirma: mas sou eu que o amo. Não! Por Deus! Só porque você é que está na cama a toda hora com ele? Lee era, de certa forma, a mecenas e, em todas as formas, a mantenedora da arte. Quanto valia cada tapinha de aprovação dado nas costas do marido? Muito!

No final o que se ouve é: “Nunca a amei, vadia!”. Ele falou movido pela devassa, seguro que o sentimento por ela era enorme. Mas será que as coisas acabam sempre assim? Grandes artistas, com mulheres fortes e batalhadoras do lado, que se privam da própria arte para alimentar a arte do marido, acabam perdidos no braço de outras e toda aquela história bonita que construíram juntos... tudo perdido como um quadro no incêndio.

O amor é um sentimento muito estranho. Ele confunde tudo. Confunde o que era para ser amizade, o que era para ser só admiração. Não sei dizer se ela amava a pessoa ou o artista. Talvez seja, de fato, um egoísmo a dois com ela amando nele a imagem que queria ver de si. Quando ele parou de pintar, ela foi-se.

Ah, que loucura. Quero ainda ver um filme em que a mulher é grande, forte, a artista e há o homem do lado, dando todo o suporte e fazendo o café. Edith Piaf afundou-se sozinha, Frida Kahlo, no final também era só. Dalva levou um pé na bunda bem dado por Herivelto. Que mais?

Relacionamento tem prazo de validade?! Que triste. Difícil é saber quando o momento certo de partir:

“Quando sabe que terminou um quadro?”

“Quando sabe que terminou de fazer amor?”

Nu peito

More, tatua em teu corpo uma rosa!
Coloca bem grande e bonita no peito.

Dorme com ela, levanta com ela.
Viva com ela e morra com ela.

Ela... sempre grande e bonita no peito!
Será a única forma de mantê-la assim.

Inspirada em A Rosa Tatuada, de Tennessee Williams

"...uma mulher com seu amante."

Clarice Lispector

A relação que encontro com as políticas públicas para comunicação e leitura com esse conto da Clarice Lispector se resume, basicamente, no monopólio da cultura e na necessidade de democratizar o acesso aos livros e à leitura.

A garota de cabelos meio arruivados é a representação da elite cultural existente desde há muito tempo e que ainda persiste. Elite que se constrói e permanece por meio da detenção dos meios materiais e da capacidade de traduzir esses meios valendo-se de leituras. No caso, a narradora do conto tinha tanta capacidade de ler quanto a dona do livro e até mais - mas também muito acontece da dona, por ter o livro, ser a melhor capacitada para sua leitura e interpretação. O processo de interpretação vai-se dando aos poucos, começamos com os infantis, vamos aos clássicos. Ler precisa condizer com a idade, com nosso conhecimento de dicionário e outros fatores que tentem a ficar restritos, também, aos donos dos materiais (considerando que outros têm pouco acesso a eles).

A reflexão se dá nesse campo da acessibilidade da leitura. A garota meio ruiva é a representação de uma desigualdade cultural/educacional e da burocracia que também ajuda a alimentar esses desníveis. Lendo o conto, vendo a garota chegando à casa da filha do livreiro para buscar o livro prometido e voltando de mãos abanando, me fez lembrar episódios em que fui à biblioteca, quando o catálogo acusava “livro disponível”, e a obra não era encontrada, nem na estante, nem nos carrinhos, nem no xerox, e a mulher que ali estava a nosso serviço nem se importava – só disse: tem certeza que o livro é dessa biblioteca? Depois de checar três vezes no computador, eu não tinha mais dúvidas: o livro não estava ali e conseguir segurá-lo, levá-lo para casa, é um privilégio muitas vezes maior do que lê-lo. Ler acaba sendo mais fácil do que ter para ler.

Acho muito válida a leitura desse conto, pois, resumidamente, me faz refletir sobre as seguintes ideias: o monopólio dos bens culturais, o monopólio da capacidade de interpretação dos bens culturais e a supervalorização do livro como objeto raro de pouca acessibilidade. Tudo isso diretamente relaciono à necessidade de medidas públicas para democratização da comunicação e da leitura.