Felicidade hoje.
Porque se é noite, é culpa da Terra, que deu as costas para o sol.
terça-feira, agosto 31, 2010
domingo, agosto 29, 2010
Agora sou eu
Alguém se lembra quando ela abria a geladeira e pegava uma cerveja?
Acho que não. Só lembro do eu, da mãe, na cozinha.
Ela mexendo as panelas, olhando o arroz.
Eu conversando, fazendo companhia. Não era justo.
Nunca foi justo. A casa inteira vibrando e ela no fogão.
Todos comiam de boca cheia, e ainda ouvia reclamação de uma irmã mais velha, que a batata estava sem sal, que o bife estava duro.
Duro é levar o mundo nas costas e ao buscar seu meio de se libertar, ouvir repressão.
Puxa vida, minha mãe, uma lata na mão?
Mal sabia eu que era necessária, como sempre foi ao pai, ao avô, ao parente desconhecido.
Hoje sou eu que vou ao mercado, que cozinho, que engulo a comida sem sal que fiz, mas continuo achando boa, porque sei o trabalho que se dá para sair do duro e entrar no cozido.
Hoje, meu deus, sou eu que coloco na cesta umas latas, que as lavo, que as gelo, que as abro.
E sou eu, descaradamente, a safada que bebe e arrota. Um arroto caldo de pia. E que seja audível e claro, como queria que fosse, minha mãe, meu pedido de desculpas.
Hoje sou eu.
segunda-feira, agosto 23, 2010
Futuro do Pretério do Indicativo
Ave maria queria cheia você, de graça
Senhores dialogar com convosco seu poema,
Bendita mas sois você, vós não, entre está as aqui para me, mulheres, escrever.
Senhores dialogar com convosco seu poema,
Bendita mas sois você, vós não, entre está as aqui para me, mulheres, escrever.
Rogando pelo pretérito perfeito do indicativo do verbo voltar. Na terceira pessoa do singular.
domingo, agosto 22, 2010
Noturno
Disse tchau fechando a porta sem bater
Suave fingindo o passo a caminhar
Lá fora ficou na parede a encostar as costas frias na parede quente
Derreteu a parede entre a gente
Olhei de volta e estavas outro
Alguém diferente, não mais o de outrora
Se mudastes para melhor, não sei. Mudei. Fez-se silêncio.
Mais alguns dias espera. A linha depois se rompe e volto a te tocar.
As costas podem continuar frias, mas o coração é o que importa.
Mesmo sabendo que você não tem acesso a ele. Talvez enfiando a mão pela garganta.
Olha, sente, vê como pula. Digo que é por você, mas não garanto.
Digo que palpita, mas não sei se é espanto.
Puro medo de não ter, ainda, enfrentado a Mulher-Esqueleto?!
E nesse embate, nesse iglu de nós, nessa selva do Congo, tão verde que fica preta
Meu amor, danço eu dança você.
Bailemos então.
Comprei uma calça xadrez para me esquentar.
Toda torta
Mole fazendo malabarismo nas pernas bambas em lugar de bambis
A confudem com a fauna e a flora. Sem perfume.
Caída para a esquerda na parte superior, tomba toda para a direita
Como se estivesse grávida de costas e daquele lado.
E está. Nela é gerada a dor de um rebento
Que esfrega a unha dentro dela desenhando na parede um coração.
Mamãe. Sou filho da sua lágrima, da sua pedra pisada
Se seu pé sangra, sou eu que te ajudo a sangrar
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