sábado, março 05, 2011

"...uma mulher com seu amante."

Clarice Lispector

A relação que encontro com as políticas públicas para comunicação e leitura com esse conto da Clarice Lispector se resume, basicamente, no monopólio da cultura e na necessidade de democratizar o acesso aos livros e à leitura.

A garota de cabelos meio arruivados é a representação da elite cultural existente desde há muito tempo e que ainda persiste. Elite que se constrói e permanece por meio da detenção dos meios materiais e da capacidade de traduzir esses meios valendo-se de leituras. No caso, a narradora do conto tinha tanta capacidade de ler quanto a dona do livro e até mais - mas também muito acontece da dona, por ter o livro, ser a melhor capacitada para sua leitura e interpretação. O processo de interpretação vai-se dando aos poucos, começamos com os infantis, vamos aos clássicos. Ler precisa condizer com a idade, com nosso conhecimento de dicionário e outros fatores que tentem a ficar restritos, também, aos donos dos materiais (considerando que outros têm pouco acesso a eles).

A reflexão se dá nesse campo da acessibilidade da leitura. A garota meio ruiva é a representação de uma desigualdade cultural/educacional e da burocracia que também ajuda a alimentar esses desníveis. Lendo o conto, vendo a garota chegando à casa da filha do livreiro para buscar o livro prometido e voltando de mãos abanando, me fez lembrar episódios em que fui à biblioteca, quando o catálogo acusava “livro disponível”, e a obra não era encontrada, nem na estante, nem nos carrinhos, nem no xerox, e a mulher que ali estava a nosso serviço nem se importava – só disse: tem certeza que o livro é dessa biblioteca? Depois de checar três vezes no computador, eu não tinha mais dúvidas: o livro não estava ali e conseguir segurá-lo, levá-lo para casa, é um privilégio muitas vezes maior do que lê-lo. Ler acaba sendo mais fácil do que ter para ler.

Acho muito válida a leitura desse conto, pois, resumidamente, me faz refletir sobre as seguintes ideias: o monopólio dos bens culturais, o monopólio da capacidade de interpretação dos bens culturais e a supervalorização do livro como objeto raro de pouca acessibilidade. Tudo isso diretamente relaciono à necessidade de medidas públicas para democratização da comunicação e da leitura.


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