domingo, setembro 25, 2011
E eu, pra onde vou com essa saudade?
Quase todo dia vem na minha cabeça algo da minha infância. É como seu eu visse um filme. A casa em Mirassol, minha mãe no fogão, a gente arrumando os brinquedos. As coisas que passavam na televisão, como os móveis eram altos, o quanto a gente se divertia com cada bobeira. Foi um período maravilhoso, de muitas reflexões. É como seu eu tivesse vivido sabendo que iria acabar, e tivesse aproveitado cada minuto, por isso não queria perder tempo tomando banho ou dormindo. O meu objetivo era fazer graça e ser feliz. As visitas das tias de domingo, as brincadeiras com as primas, nossas coreografias. Ninguém me perguntava o que eu seria quando crescesse e nem as notas dos meus desenhos na escola. Hoje ainda acredito que isso não é o que vai me fazer feliz. Mas eu pergunto: cadê as pessoas? Cadê minhas irmãs? Cadê minha mãe? O domingo em família? As graças, o tio-avó tocando suas modas de viola. Cadê o chá da tarde, o almoço barulhento na mesa grande, a cidade pequena, na casa humilde, mas todo mundo junto, comendo junto, rindo junto. Família é uma coisa sem explicação. E quando chega a hora da gente fazer uma, e se vê gostando de um que não te gosta, e de outro que te admira só como amiga, bate um medo de morrer sozinha, mesmo que isso não traga de volta a vida de antes. O domingo de antes, a rua de antes, as canções de dormir de antes, a mãe de antes. Fica tudo na cabeça, como um filme, com coisas e pessoas que não dá mais pra tocar. Era tudo tão lindo, tão bom, mesmo triste. As festas em casa, a Betânia no rádio, os vizinhos conversando. O quarto escuro, o travesseiro que me abraçava, a porta que precisava ficar aberta por causa do medo do escuro. A sala, com a grande cortina, o caminhão da dengue que queria nos envenenar. O vô no quintal contando as estrelas, e eu brincando de Huck do lado dele. O superman na praia que nunca me devolveu meu baldinho, os bingos que nunca ganhei, a pilha que estourei e me deixou com o braço coçando, a cartela de Ass que quase comi inteira, a catapora que foi curada na bacia, a piscina de saibro, as sacolinhas de surpresa nos aniversários, a bicicleta rosa de cestinha, as pulseirinhas de fio de telefone, a pipoca feita no latão, a abóbora de Halloween na porta do vizinho, a casa mal assombrada da esquina, a fonte de água potável da Dona Quita, o varredor de rua que torcia pro Guarani, o carregador de leite que trazia o latão toda manhã, o moço que vendia pão de bicicleta, a senhora que vendia alface, a outra senhora que vendia sucola por 10 centavos, as porções de batata-frita e coca-cola no bar, as coleções de figurinhas, as brigas com os primos, o gato adotado, o pássaro preto do avô, o trator amarelo e roxo que sumiu, o armário de ferramentas, as coleções de moeda, comer feijão em cima da mesa, trocar fralda da irmã... putz, tanta, tanta, coisa, riscar a rua inteira de tijolo, pular amarelinha, arrancar a tampa do dedão jogando futebol, organizar o campeonato de bétia, comer pitanga na escola, comer jambo na Carol, comer acerola na Dona Quita, ir no centro, orar, e observar e viver como uma criança poderia viver, em um mundo protegido pelos adultos que nos ajudava a alimentar todas essas fantasias. A pena não é ter crescido, é ser sentimental a ponto de não achar sua vida tão legal e interessante quanto era há 10, 15 anos. E pensar que ainda existem 60 anos pela frente... me assusta um pouco. =/
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