domingo, março 06, 2011

Passarinhos, como vão vocês meus passarinhos...

...vocês iriam ter milhões de ninhos nesse mundo só meu. Acho que essa música, de Alice no País das Maravilhas, costura bem o episódio “aves” vivido hoje, e tem tudo a ver com A Gaivota, de Anton Tchecov. “Nesse mundo só meu”... creio que os personagens se perdem nesse mundo. Eles estão tão fechados em se fazer realizados, que fracassam o tempo todo. Até a Macha, que pode parecer a mais sensata, racional, vai seguindo o caminho da roça.

Dois fracassos de atrizes, pessoas menos que medíocres, independente do resultado da arte. Vivem em função do outro. Lutam pelo mesmo artista do qual querem aprovação, se perdem a aprovação se perdem. Uma, Arkádina, aceita viver com chifres, melhor do que viver sozinha. E a outra, Zariêtchnaia, é pisada o tempo todo - mas o que importa, se o sapato é de um homem ilustre!?

Quem é Sórin? Talvez a figura mais engraçada de toda a comédia. Ah, sim, ele é tão vigoroso, tão cheio de vontade de viver que é o primeiro a dormir nas reuniões. Inventa desculpas para vida tosca que levou, ciente da incapacidade de ter realizado dois sonhos: ser escritor e ter se casado.

Vários queriam escrever. E a escrita, em nenhum momento, surge como satisfação. É motivo de inquietação, Trigórin (que me fez lembrar o Gânia, de O Idiota, do Dostoiévski - por ser um encostado) vê em suas obras um ato de tormento. Ele não sossega. Não consegue viver sem anotar e pensar no que pode, ou não, entrar em sua próxima obra.

Trepliov é outro insatisfeito. A inspiração dele está na amada. Vai-se a amada e vem, em troca, uma tentativa fracassada de suicídio e outra muito bem realizada.

Inquietação. Acho que essa palavra definiria A Gaivota. Todos estão perturbados com suas vontades, amores, medos. Talvez tirando a figura do médico, o mais romântico entre os realistas, todos vivem tormentos. O médico, engraçado, é o único que parece gozar a vida e é o único que, de fato, olha para o outro como outro.

Tem tudo a ver com o Pollock, também, essa insatisfação artística. A atriz, o escritor, todos querem ser reconhecidos e terem uma característica particular que os possa distinguir.

Para finalizar, achei boa, apesar de triste por ser, digamos, “não difícil de imaginar”. É mais um grupo de perdidos no ego, na vaidade, no amor, na dependência com o outro, carentes da aprovação do outro e no fundo preocupados só com o seu. Nisso, não saem desse mundo, universo de festas, de bebidas. Rola até um rapé.

Para também encerrar com música, o que ando vendo nessas obras “é um ciclo sem fim”.

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