terça-feira, maio 17, 2011

Nelson Rodrigues 1

Falando sobre...

Já minhas outras peças são muito mais selvagens. Mas o que tocou Lúcio Cardoso foi a cena, ainda no primeiro ato, cena de uma mulher matando um homem. E, segundo o romancista, eu estaria ali fazendo uma imitação da vida. Era Roberto que morria outra vez, assassinado outra vez. E confesso: - o meu teatro não seria como é, nem eu seria como sou, se eu não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato de Roberto. (p. 84)

Três anos depois descobri o teatro. De repente, descobri o teatro. Fui ver, com uns outros, um vaudeville.Durante os três atos, houve, ali, uma loucura de gargalhadas. Só um espectador não ria: - eu. Depois da morte de Roberto, aprendera a quase não rir; o meu próprio riso me feria e me envergonhava. E, no teatro, para não rir, eu comecei a pensar em Roberto e na nudez violada da autópsia. Mas, no segundo ato, eu já achava que ninguém deve rir no teatro. Liguei as duas coisas: - teatro e martírio, teatro e desespero. No terceiro ato, ou no intervalo do segundo para o último, eu imaginei uma igreja. De repente, em tal igreja, o padre começa a engolir espadas, os coroinhas a plantar bananeiras, os santos a equilibrar laranjas no nariz como focas amestradas. Ao sair do vaudeville, eu levava comigo todo um projeto dramático definido. Acabava de tocar o mistério profundíssimo do teatro. Eis a verdade súbita que descobrira: - a peça para rir, com essa destinação específica, é tão obscena e idiota como o seria uma missa cômica. (p.95)

A menina sem estrela - Memórias

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