terça-feira, maio 17, 2011

Nelson Rodrigues 2

O salário mudou tudo. Duzentos mil-réis no fim do mês. De um momento para outro, voltavam em mim os sentimentos antigos do homem. Aí aprenderia, como já disse, que o Raskolnikov exige um salário. (Ma-ra-vi-lho-so!) O ódio que leva um sujeito a matar uma usurária, ou a dinamitar um czar, precisa de um ordenado. Mesmo o homicida sexual tem que ser um remunerado. Ou então não chega nem ao desejo. (Um Raskolnikov desempregado convence menos).

Eis o que eu queria dizer e não encontrava palavras: - durante meu desemprego e, portanto, durante a fome total, não desejei ninguém. Não pensava em mulher. De vem em quando, procuro me lembrar se, naquela fase, em algum momento daquela fase, quis alguma mulher. Não me lembro de nenhuma figura feminina, nenhuma, nenhuma. Só me lembro da minha castidade.

E agora, o sexo, a luta de classes, o amor, o ódio, a inveja, os pecados capitais ou subsidiários trabalhavam novamente a minha carne e a minha alma. E repito: - fui, por muito tempo, uma espécie de Raskolnikov de Roberto Marinho. Odiei a sua casa, as suas varandas, os seus automóveis, os seus ternos, os seus cristais. (p.117)

A menina sem estrela - Memórias
É... precisa-se de um mínimo de dignidade para ser indigno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário